01.07.2020

#EstamosJunt@s: Utilizar o Coronavírus para Abrir Portas à Juventude e para a Criação de Emprego

O pesquisadora Salimah Valiani, em Joanesburgo, imagina uma economia próspera, ao invés de uma que sofre de doenças e morte.

Pouco antes da quarentena na África do Sul, uma jovem conhecida minha conseguiu o seu primeiro emprego. Cerca de um ano antes, tinha concluído um curso de Marketing na faculdade. Contratada por uma empresa que é subcontratada por uma das poucas e abastadas seguradoras da África do Sul, a jovem estava a vender seguros por telefone.

Depois de algumas semanas de formação pagas ao salário mínimo nacional, os seus ganhos foram ajustados para a simples comissão que era paga apenas se ela realizasse quatro vendas ou mais por dia. Como o seu rendimento não era suficiente para o transporte de e para o subúrbio (township), ela pediu ajuda à avó. Ocorreu-me que, se ela ficasse connosco na cidade, poderia economizar tempo de transporte e a avó não precisava de ceder do seu escasso subsídio do governo. Em meados de Março, a minha jovem amiga recebeu o salário de Fevereiro, atrasado duas vezes. 

A seguir, a quarentena, 10 dias depois, veio paralisar tudo.

Quando as empresas começaram a pressionar o governo para facilitar as regras da quarentena, o sector financeiro argumentou que fornecia um serviço essencial e que deveria poder reabrir. Perguntei à minha amiga vendedora que planos de seguro é que ela vendia que podiam ser considerados essenciais. A sua resposta: seguro funerário.

A minha amiga estava disposta em voltar ao trabalho, não obstante o salário escasso e apesar do risco de viajar de e para o subúrbio em veículos não regulamentados e ainda mais inseguros nos tempos da COVID-19.

Tudo isto traz à tona a dolorosa realidade de milhões de jovens desempregados e a mínima criação de emprego na África do Sul. Os poucos jovens que conseguem emprego enfrentam uma escolha extremamente limitada, muitas vezes trocando a segurança e os direitos dos outros trabalhadores por um emprego permanente. 

Entre 1995 e 2014, os serviços bancários e financeiros foi o único sector que registou um crescimento económico, passando de 16 para 22% do PIB. Pouco mudou. Por sua vez, existe o grosso da criação de empregos. Mas estes empregos são em grande parte precários e mal pagos, como o emprego oferecido à minha jovem amiga.

Além disso, estes empregos buscam capitalizar nas elevadas taxas de doenças e de mortes prematuras, tão típicas num país classificado como o menos saudável do mundo pelo índice Indigo Wellness de 2019. 

E se as coisas fossem diferentes?

Do crescimento económico estritamente definido, às conexões cruciais entre a saúde da população e as economias saudáveis, a COVID-19 oferece a possibilidade de reiventar.

Em vez de o exército policiar os movimentos das pessoas nos subúrbios durante a quarentena, e se o estado empregasse jovens como a minha amiga para actividades de sensibilização de porta-a-porta? Continua a circular uma série de dúvidas sobre o vírus. Algumas das intervenções mais bem sucedidas do HIV-SIDA envolvem membros comunitários que trabalham nas suas comunidades para aumentar a sensibilização. Após a pandemia, estes curandeiros poderiam continuar a trabalhar numa educação mais ampla em termos de saúde.

Em vez de distribuir pacotes que contêm apenas produtos básicos de higiene pessoal e alimentos a granel, que representam cerca de metade da ingestão calórica recomendada pela ONU durante uma pandemia, os governos deviam incluir sementes e outros princípios básicos para cultivar legumes. Os trabalhadores jovens deslocados e os desempregados podem se envolver no cultivo de alimentos, com efeitos que duram além da crise actual.

Mesmo antes da quarentena, quase metade da população nacional apresentava indícios de insegurança alimentar. Em 2017, a Cidade de Joanesburgo estimou englobar 6 milhões de pessoas com insegurança alimentar, apenas na grande Joanesburgo. Uma alimentação diária saudável e suficiente é fundamental para os trabalhadores e os alunos serem o mais tão produtivos possíveis.

Para garantir produtos alimentares frescos para todos durante a pandemia, podem ser mobilizados e formados jovens e outras pessoas para cozinhar refeições equilibradas, com segurança e em massa, e entregá-las às pessoas em casa.

Antes da pandemia, outra jovem minha conhecida trabalhava há um ano como profissional de saúde comunitária, fazendo a despitagem de doenças não detectadas porta-a-porta. Quando o seu contracto terminou, ela foi substituída e desde então nunca mais conseguiu um emprego a tempo inteiro. Apesar da sua experiência em despitagem e conhecimento dos problemas de saúde na sua comunidade, ela não conseguiu uma posição como profissional de saúde comunitária para fazer a dispistagem da COVID-19.

A gestão comunitária do coronavírus é a estratégia oficial do governo. Foram contratados cerca de 28.000 trabalhadores comunitários de saúde para identificar as pessoas que precisam de ser tertadas. Mas para 28.000 trabahadores cobrirem uma população de 59 milhões, cada trabalhador precisa rastrear cerca de 21.000 pessoas- e rapidamente, para evitar maior transmissão comunitária. 

E se fossem formados e empregados mais trabalhadores comunitários da saúde para esta tarefa? E se fossem adicionados mais ainda para garantir que as epidemias já existentes, como a tuberculose e o HIV-SIDA, não sejam negligenciadas durante a pandemia? E ainda mais para lidar com a epidemia silenciosa, o alcoolismo, que a proibição da venda do álcool reconheceu discretamente.

Após a pandemia, estes trabalhadores podem ajudar a construir cuidados de saúde pública que são verdadeiramente universais.

A COVID-19 deixa espaço às sociedades para se reinventarem e modificarem.

A escolha é uma economia que prospera com a vida ou uma economia que oscila entre doenças e morte.

 

A série “  #Estamos Junt @ s - Corona Brief Moçambique”  gostaria de trazer perspectivas diferentes e muitas vezes esquecidas dos impactos da crise, chamar atenção aos desafios que devem ser abordados colectivamente, mas também levar os holofotes as soluções criativas, que as moçambicanas e os moçambicanos encotram para lidar com a pandemia. No final, solidariedade e criatividade colectiva são os melhores parceiros rumo a uma saída da crise. #EstamosJunt@s!

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