10.09.2020

#EstamosJunt@s: #PressFreedomMatters

Zoé Titus, defensora de longa data da liberdade de comunicação social da Namíbia, pede que não limitemos apenas os nossos pedidos de justiça a jornalistas de fama e com estatuto de celebridade.

Em África, completou-se três meses da 'experiência' da COVID-19, período durante o qual se ajustou, de má vontade, o ritmo da vida diária a vários níveis de confinamentos nacional. Isto originou muitas coisas - boas e más. O que também nos ofereceu, sem pedirmos - foi tempo e espaço para deliberar sobre questões mais profundamente.

A incerteza sobre o que o mundo pós-COVID-19 faz-nos questionar muitas coisas – o caminho que estamos a seguir, tanto como indivíduos como nações, bem como a direcção geral do mundo. Principalmente, estamos lentamente a tentar reimaginar o nosso futuro, com a percepção – instigada por esta pandemia – da nossa conexão infinita.

Os protestos #BlackLivesMatter, em resposta ao assassinato de George Floyd, é um excelente exemplo da oportunidade para uma reflexão mais profunda. ‘Devemos e podemos fazer melhor’ é a chamada de proclamação que emana de reflexões e discussões profundas e dolorosas. E assim, o consenso global de que o racismo sistemático nos EUA e noutras partes do mundo deve terminar.

Na nossa região, isto provocou intensas discussões sobre o racismo, a injustiça racial, a xenofobia e as suas intersecções com a identidade e o poder. Na África do Sul, houve uma reflexão renovada sobre o activismo juvenil. Na Namíbia, a campanha no Twitter #GallowsMustFall entrou em erupção, pedindo a remoção de um monumento considerado racista, insensível e representando o ódio pela negritude. Houve protestos públicos contra o racismo, a violência de género e a brutalidade policial na Namíbia e noutras partes do continente.

Então, foi através desta lente profundamente reflexiva que assisti de perto ao desenrolar da história, que foi notícia de primeira página, do site de notícias das Filipinas Rappler e o veredicto do tribunal sobre a “difamação cibernética” por parte da sua Directora Executiva, Maria Ressa. Em circunstâncias normais pré-COVID19, possivelmente não teria estado tão envolvida.

Acordei com a reportagem de segunda-feira, 15 de Junho, na British Broadcasting Corporation (BBC), seguida de actualizações e artigos de opinião na CNN, The Guardian (Reino Unido), Al Jazeera e Washington Post, detalhando o resultado do julgamento, As suas terríveis consequências para a liberdade de imprensa nas Filipinas e para a democracia em geral. Declarações de organizações de direitos humanos e liberdade de expressão, especialistas e apoiadores multiplicaram nas plataformas das redes sociais.

Em solidariedade, também comentei através do Twitter - dizendo a Maria Ressa e Rappler para "continuarem a combater uma boa luta" e pontuando a minha ligação com as hashtags #CourageON e #DefendPressFreedom . Mas aqui está o enigma ...

O que isto indica é que somos e devemos ser compelidos a agir quando testemunhamos injustiças. Influencie ou não directamente a nossa experiência vivida.

Incontestavelmente, temos que ser solidários com pessoas como Ressa e o falecido Jamal Khashoggi, assassinado pelo regime Saudita. Devemos gritar bem alto quando a vida dos jornalistas está em perigo ou quando eles são impedidos de fazer o seu trabalho - trabalho que afecta directamente a nossa democracia e o nosso direito de saber. Mas também devemos ser consistentes e gritar com o mesmo volume e vigor por toda e qualquer injustiça, para não passarmos a ser autores da injustiça e da desigualdade.

Por que então, é que os protestos da comunidade global de expressão livre pelo jornalista Camaronês Samuel Wazizi, que foi confirmado morto a 5 de Junho, quase 300 dias após sua prisão em Agosto de 2019, foram mais brandos? Por que é que not estamos a ver a mesma manifestação de solidariedade pela sua morte?

Wazizi foi preso ostensivamente por coordenar a logística de combatentes separatistas - uma acusação que a sua família e colegas negam veementemente. De acordo com um porta-voz do exército, Wazizi morreu logo após a sua prisão, em Agosto de 2019. O exército rejeita as acusações de tortura e o governo Camaronês não indicou nenhuma intenção de investigar as circunstâncias da morte de Wazizi. Um protesto moderado e diplomaticamente silenciado da comunidade global de expressão livre; relatórios rápidos na comunicação social local e internacional - e, contudo, Wazizi pagou o preço mais elevado pelo seu ofício. Se tivéssemos feito uma campanha tão vigorosa por ele como estamos a fazer por Ressa, talvez Wazizi ainda estivesse vivo hoje. Nunca saberemos.

Da mesma forma, temos o jornalista Moçambicano Ibrahimo Abu Mbaruco, que desapareceu a 7 de Abril deste ano na Cidade de Palma, na Província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique. Mbaruco teria saído do trabalho por volta the 18h00 e logo em seguida enviou uma mensagem de texto a um colega a dizer que estava cercado por soldados. Silêncio ensurdecedor das forças armadas sobre o seu paradeiro, relatórios esporádicos da comunidade dos direitos humanos e liberdade de imprensa e uma reacção dolorosamente indefinida do público.

É extenuante enumerar as muitas histórias de jornalistas detidos no continente. Segundo or Comité para a Protecção dos Jornalistas (CPJ), havia 73 jornalistas em prisões em África até ao final de 2019. Esse número já aumentou desde então.

Mas, à medida que a campanha global de apoio a Ressa ganha força, é de fundamental importância que toda a África se solidarize, em princípio, da mesma maneira que eu espero que o resto do mundo apoie os jornalistas Africanos. Se devemos limitar os nossos apelos à justiça com base na personalidade das pessoas, sua notoriedade ou fama e gravidade nas plataformas internacionais, estamos a fazer um desserviço à luta pela liberdade de imprensa. Então estamos a alimentar a cultura difundida de impunidade que rodeia a violência contra os jornalistas.

Com alguns governos Africanos a intensificar os seus ataques à comunicação social sob a cobertura do confinamento ea COVID-19, devemos aumentar o volume da liberdade de imprensa quando e onde estas violações ocorrerem.

Zoé Titus é actualmente a Directora do Namibia Media Trust. Dedicou os últimos 26 anos da sua vida a promover a liberdade eo desenvolvimento da comunicação social e fez parceria com a fesmedia Africa nos seus vários cargos e funções.

A série "#EstamosJunt@s- Corona Brief Moçambique" gostaria de trazer perspectivas diferentes e muitas vezes esquecidas dos impactos da crise, chamar atenção aos desafios que devem ser abordados colectivamente, mas também os levar aos holofotes as soluções criativas, que as moçambicanas, e os moçambicanos encontram para lidar com a pandemia. No final, solidariedade e criatividade colectiva são os melhores parceiros rumo a uma saída da crise. # EstamosJunt@s. 

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