10.06.2020

#EstamosJunt@s: Os Desafios nos Novos Métodos de Ensino face à Corona Vírus

Os novos métodos de ensino adoptados para responder a pandemia do novo Coronavírus, trazem consigo uma necessidade de revisitar os métodos de ensino, tomando em consideração as desigualdades de ensino, bem como àqueles das zonas rurais, que representam uma grande parte dos estudantes. Maria Paula Helena da Vera Cruz, da Organização Nacional dos Professores (ONP), partilha as suas reflexões sobre o efeito da pandemia na área da educação.

A educação é direito de todos e dever do estado, garantindo que seja digna, pública e de qualidade. A rápida expansão do acesso a educação para um grande número da população, nos distritos e comunidades, trouxe consigo desafios ligados a qualidade desses serviços. Muitas crianças na escola primária probl são capazes de ler ou resolver aritmética básica, e ainda permanecem desigualdades no acesso e qualidade dos serviços prestados.

O ano de 2020 apresenta novos e importantes desafios ao nosso país para o sector de educação e para todos como cidadãos. Implementam-se as alterações importantes na Constituição da República em que a descentralização do poder para o nível local é o foco ea pandemia do Covid-19 obriga-nos a adaptar o sistema educativo a meta do distanciamento social.

Educação e COVID19

De modo a conter a rápida propagação do coronavírus, Moçambique veio a declarar o estado de emergência ao nível nacional. Dentre as medidas anunciadas pelo chefe de estado, consta a suspensão das aulas em todos os estabelecimentos públicos e privados, desde o ensino pré-escolar até o superior, e ainda a redução de números de pessoas nos eventos de carácter social, salvo actividades do interesse estritamente público e uso obrigatório de máscaras nos aglomerados.

Perante a medida de encerramento das aulas, o Ministério de Educação e Desenvolvimento Humano (MINEDH) foi desafiado a criar estratégias de modo a garantir a continuidade das aulas através de outros mecanismos e plataformas, entre elasios nasas résumées redes sociais como WhatsApp. E é aqui onde se centra a nossa reflexão perante as zonas rurais. 

Num passado recente, o  MINEDH descartou a possibilidade de anulação do ano lectivo  2020. No entanto, as plataformas usadas para as aulas são a televisão, rádio, internet, e ficha de exercícios de apoio que devem ser monitoradas pelos pais / encarregados de educação. Segundo as autoridades de educação, são um sucesso, mas não se sabe se os alunos estão ou não a acompanhar as aulas. Todavia, estudos moçambicanos nos últimos anos, mostram que pais/encarregados de educação tem muitas dificuldades em fazer acompanhamento dos seus educandos.

Os 8.3 milhões de alunos moçambicanos, sendo do ensino primário e secundário, estão distribuídos em vários pontos do país não estando só nas capitais provinciais. De acordo com INE (2017):

  • 60% da população vive no meio rural, apenas 33.4% vive no meio urbano,
  • 69.8% vive em palhotas,

Apenas 22.2% de moçambicanos tem acesso a energia eléctrica.

Portanto, os restantes recorrem a baterias, velas, petróleo/parafina, pilhas, entre outras fontes de energia: 33% tem rádio nas suas casas e 29.1% tem TV. Em suma, 79.7% dos moçambicanos não tem TV and não poderão acompanhar as aulas da telescola, nem a rádio. 

Inclusão e Exclusão

Além dessa realidade de acesso aos novos meios de ensino, temos muitos moçambicanos sem condições para tirar cópias. Alguns pais não conhecem o que é uma máquina fotocopiadora. Em alguns cantos do país, a cópia chega a custar entre 3 a 5 meticais. Actualmente, 1kg de milho custa 10 a 12 meticais. 

Alguns alunos vivem entre 100 a 180km dos locais onde devem ir buscar as fichas. Podemos imaginar o custo de transporte? E os alunos que não tem a capacidade de poder buscar ou reproduzir estas fichas, até que ponto se estão a beneficiar das novas estratégias de ensino? Não estaremos a cometer exclusão dentro da inclusão perante a realidade socioeconómica do nosso país?

Não seria prudente aceitarmos que o ano está perdido e por via disso, estudarmos outras possibilidades? Não seria ponderado pensar na mudança do calendário escolar, tendo em conta que o impacto do fracasso é mais severo para crianças desfavorecidas e suas famílias? Criando stress e ansiedade, malnutrição naqueles que dependem de programas gratuitos de alimentação, diminuição da productividade económica dos pais que tem que cuidar dos filhos e faltarem ao serviço?

Dada essa conjuntura, devemos apoiar a tomada de decisões de educação para desenvolver e implementar respostas eficazes a educação para a pandemia do corona vírus. Em relação a falta de acesso a tecnologia, deve-se contactar operadoras de telecomunicações e empresas de  hardware  para melhor explorar as melhores formas de apoio. Deve-se também mobilizar a sensibilidade de estudantes e profissionais da psicologia e sociologia para apoiar as crianças desfavorecidas e suas famílias. E, devem-se criar programas de ocupação das crianças nos tempos livres, entregues ao domicílio apoiando aos pais em actividades lúcidas e outras.

A pandemia Covid-19 impacta á vida das moçambicanas e dos moçambicanos por um certo período, mas o fracasso na educação poderá impactar as nossas vidas para semper e destruir o futuro de uma geração - sem a esperança para uma vacina, que resolve. 

 

A série “  #Estamos Junt @ s - Corona Brief Moçambique”  gostaria de trazer perspectivas diferentes e muitas vezes esquecidas dos impactos da crise, chamar atenção aos desafios que devem ser abordados colectivamente, mas também levar os holofotes as soluções criativas, que as moçambicanas e os moçambicanos encotram para lidar com a pandemia. No final, solidariedade e criatividade colectiva são os melhores parceiros rumo a uma saída da crise. #EstamosJunt@s!

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