29.05.2020

#EstamosJunt@s: Covid19 e o Enorme Desafio do Sector de Educação e Perspectivas para Cabo Delgado

A pandemia da Covid19 e o estado de emergência destruturaram a vida pública de uma maneira profunda, e colocam grandes desafios de adaptação para os sectores essenciais como saúde e educação. Conversamos com Egna Sidumo, pesquisadora do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais da Universidade Joaquim Chissano sobre os desafios do ensino superior em tempos de Covid e sua análise sobre a situação no norte do país.

A migração do ensino aos espaços online tem sido um desafio em países com baixa penetração digital. Como é que o CEEI tem lidado com a reestruturação do ensino?

O encerramento das aulas em escolas e universidades em resposta ao Coronavirus representa um sério risco para a educação. Medidas alternativas tem sido tomadas para garantir que os estudantes continuem a ter aulas remotamente mas, reconhecendo as dificuldades de acesso à internet e das plataformas de ensino à distância pouco usadas no país, temos consciência que teremos um retrocesso e incapacidade de avaliar o nível de assimilação das matérias por parte dos estudantes.

Maior parte dos estudantes do ensino superior em Moçambique, tem dificuldades de aceso às tecnologias sendo mais evidente entre as crianças rurais que não possuem uma TV, telemóveis e acesso a internet para poder acompanhar as aulas, e nem sequer educadores capazes de monitorar as aulas à distância. Dentro das cidades os custos das aulas à distância são bastantes onerosos para os país e encarregados de educação que ainda devem cumprir com o compromisso de pagar as propinas devido à falta de regulamentação governmanetal.

O CEEI está também involvido em pesquisas e aconselhamento político. Como conseguem trabalhar nesta situação?

Como instituição de pesquisa, o CEEI-UJC tinha uma série de compromissos institucionais com entidades nacionais e estrangeiras para desenvolver pesquisas no campo que alimentam as linhas de pesquisa da instituição que encontram-se neste momento comprometidas, bem como a participação em conferências internacionais e programas de formação de curta duração. O nosso trabalho como pesquisadores tem sido condicionado e circunstrito à análises circunstânciais e à pesquisa de gabinete.

Socialmente, percebemos que a qualidade de vida dos cidadãos tem estado em clara decadência porque a maioria da população moçambicana depende do dia-a-dia no comércio informal e, começa a experimentar significativas dificuldades para garantir o mínimo para o seu sustento numa altura em que devem manter-se em casa para previnir-se do vírus.

Politicamente, o governo se encontra numa situação difícil: terá que duplicar esforços para combater e conter a propagação do coronavírus, mas ao mesmo tempo, prever o aumento do desemprego e a dificuldade de responder às metas do Programa Quinquenal do Governo (PQG 2020-2024) recentemente aprovado cujo objectivo é melhorar o bem-estar e a qualidade de vida das famílias moçambicanas através da redução das desigualdades sociais e da pobreza, entre outros.

Um foco de pesquisa do CEEI, foi, entre outros, a observação e análise da situação em Cabo Delgado. Como vê os impactos da pandemia na região norte do país que é actualmente palco para crescentes conflictos sociais e ataques terroristas?

Em Moçambique, a ameaça da Covid-19 surge num contexto de insurgência em Cabo Delgado e ataques esporádicos da junta militar no centro do país, exigindo ao país esforços adicionais na construção da paz e mitigação do impacto dos ataques no norte do país que começam a ter consequências na circulação de pessoas e bens. As recentes declarações do Presidente da República que reconheciam pela primeira vez os ataques como acção terrorista, poderão permitir e contribuir para a mobilização de recursos para o seu combate que exigirão esforços adicionais de coordenação e maiores estudos para entender o fenômeno e aconselhar a sociedade mas, são igualmente um reconhecimento de que o Estado está perante uma ameaça real sobre a qual já não tem controlo por incidir sobre a acção de grupos terroristas com ligações internacionais.

Hoje, mais do que nunca, as ameaças estão inter-relacionaidas e uma ameaça para uma província como a de Cabo Delgado, representa uma ameaça para todo o país e particularmente para as províncias vizinhas (Nampula e Niassa). A vulnerabilidade mútua de fraco e forte nunca foi tão clara como é no caso do terrorismo e, nenhum estado, por mais estável que seja, pode, por seus próprios esforços, escapar a propagação do terrorismo na actualidade, menos ainda os nossos países na região, que partilham fronteiras porosas, redes de comércio ilícitas, pobreza e população vulnerável ao crime organizado devido as condições pre-existentes, acima identificadas que exigem a cooperação de outros Estados para se tornar seguro.

A Reunião da Troika da SADC que teve como agenda a situação de insegurança no país representa um bom pontapé de saída na busca de soluções conjuntas para combater o terrorismo antes que se remifique pelos países da região e se torne ainda mais difícil de combater. As experiências da Tanzânia e o Quênia por exemplo, são importantes na definição da estratégia moçambicana.

O governo de Moçambique tem também uma enorme responsabilidade na gestão da pandemia e dos ataques terroristas em Cabo Delgado que deverá por um lado garantir a monitoria dos indicadores de saúde nas comunidades circunvizinhas de Palma, a massificação das acções de prevenção em Cabo Delgado e adaptação das condições de educação para que as crianças não voltem em breve a escola ameaçadas pelo espectro da pandemia e dos ataques terroristas.

Não havendo uma estratégia coordenada dos diferentes sectores em Cabo Delgado para fazer face a estes dois desafios, estas a curto médio prazo representarão uma séria ameaça ao controlo efectivo do território e da propagação do coronavírus. O envolvimento das comunidades na consciencialização e construção da resiliência face à violência extrema e ao Coronavírus que até a actualidade tem sido gerido de forma munto sentram sem o envolvimento das autoridades locais que podem ser importantes agentes de mudança como foram historicamente e tem sido em vários outros assuntos de interesse nacional.

 

A series "#Estamos Junt@s - Corona Brief Moçambique" gostaria de trazer perspetivas diferentes e muitas vezes esquecidas dos impactos da crise, chamar atenção aos desafios que devem ser abordados colectivamente, mas também levar os holofotes as mouçicanican lid. No final, solidariedade e criatividade coletiva são os melhores parceiros rumo a uma saída da crise. #EstamosJunt@s!

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