24.06.2020

#EstamosJunt@s: Campanha de Solidariedade e a TV como arma na luta contra a pandemia

"Quando em Moçambique surgiram os primeiros casos da Covid-19, e logo se começou a falar da possibilidade do Governo Moçambicano decretar o Estado de Emergência, ou o Lockdown, a primeira coisa que me passou pela cabeça foram as mulheres que trabalham no sector informal" lembra-se Eva Trindade, Apresentadora de TV e uma das co-iniciadoras da campanha "A Sobrevivência Delas não Lhes Permite Ficar em Casa"

E logo de seguida, percebi que seria impossível que estas mulheres pudessem se permitir ficar em casa. Muitas das mulheres que estão no sector informal, tem a sobrevivência delas condicionadas ao que ganham no seu dia-a-dia, ou seja, elas precisam estar na rua, porque é da rua que vem o pouco que permite colocar na mesa os alimentos que guarantor a sobrevivência de seus filhos e das suas famílias.

Então, se essas mulheres não podem "ficar em casa", elas precisam encontrar formas de se proteger e de minimizar o risco de contágio. Assim sendo, decidi que iria oferecer e ensinar a fazer máscaras às mulheres que trabalham nos mercados, aquelas que por volta das cinco ou seis da  manhã, muitas vezes se sentam no chão dos mercados, com os seus cestos cheios de verduras e legumes, e vão vendendo. Aquelas que nem sequer tem bancas, porque não existem, ou quando existem, pertencem a outras mulheres que iniciam as suas actividades um pouco mais tarde (muito interessante esta dinâmica vista em mercados, como o Mercado Fajardo). 

Uma Campanha pela Vida

Tomada a decisão, decidi de seguida ligar a uma amiga, que tem estado a oferecer turbantes na Oncologia do Hospital Central, e perguntei-lhe se poderíamos juntas, oferecer máscaras. Ela aceitou, e nós começamos.

Inicialmente, a minha ideia era comprar máscaras e comprar também capulanas, e um estojo de costura. Além de oferecer as máscaras, queria ensinar a fazer, de forma que estas mulheres pudessem garantir esta forma essencial de prevenção do Coronavírus para elas e suas famílias, sem necessidade de gastar o pouco dinheiro que ganhavam, podendo destinar para outros fins.

Eu tirei dois mil meticais, a Enia Waka Lipanga, tirou o mesmo valor. Alguém com quem a Enia tinha falado, ofereceu quarenta máscaras e iniciamos então a campanha de distribuição de máscaras, que denominamos "A sobrevivência delas não lhes permite ficar em casa". No final da campanha, percebemos, com alguma satisfação que, o que começou com uma chamada à uma amiga, acabou em 43 mercados, dos quais 22 são "Dumbanengues", onde, com vários apoios, foram oferecidas cerca de 13,000 (treze mil) máscaras. Uma acção de solidariedade muito gratificante.

Usando a Televisão como Arma na Luta Contra a Doença

Entretanto, enquanto decorria a campanha, fui convidada a integrar um "task force" "Mulheres com Vida", criado pelas ALIADAS- um programa do CESC, no qual algumas mulheres e organizações feministas eram convidadas a criar, dentro da sua área de actuação, formas de minimizar os possíveis impactos negativos do Coronavírus na vida das mulheres.

Sendo eu Produtora de Conteúdos e Apresentadora de um programa de televisão sobre mulheres, e sendo elas, muitas vezes, em situações de pandemia, as mais vulneráveis ​​aos efeitos nefastos, decidi produzir programas voltados a este período. Programas úteis que pudessem ajudar a fazer a gestão deste momento em que somos obrigados ao distanciamento físico e social, sem sofrer os efeitos nefastos.

O primeiro programa foi mesmo sobre o Coronavírus, sobre as formas de transmissão, os sintomas, e as formas de prevenção. Estamos perante algo novo, sem cura, sem vacina, novo para todos, até para a Organização Mundial da Saúde (OMS). Por isso, é imprescindível falar sobre estes aspectos relacionados com esta doença, usando uma linguagem simples, que pudesse ser acessível a qualquer telespectador, e garantir que todos compreendessem do que se trata.

O segundo programa foi sobre algo, que considero fundamental quando estamos perante um problema de saúde, e que se enquadra no âmbito da prevenção: fortalecer o sistema imunológico, ou como se fala, das defesas do corpo. Portanto, o segundo programa versava sobre a importância de fortalecer o sistema imunológico e como se pode fazer, utilizando as nossas plantas e frutos nativos. Porque? Porque, a maior parte da nossa população ainda tem dificuldades, primeiro em fazer as três principais refeições, por falta de recursos, segundo porque, desconhecem o valor nutricional e curativo dos alimentos, que estão mais acessíveis, que muitas vezes podem ser obtidos nas nossas pequenas machambas ou nas proximidades.

O terceiro programa surgiu ao pensar nos possíveis impactos psicólogos negativos do Coronavírus nas pessoas, e na vida das raparigas e das mulheres em particular. Embora a maior parte da sociedade moçambicana desconheça a função e importância de um Psicólogo para a nossa saúde, os serviços destes profissionais tem muita importância nestes momentos. Queria desmistificar a ideia que "so recorre ao Psicólogo quem é maluco" e contribuir para o bem estar psicólogo e mental, muitas vezes afectado nestas circunstâncias. Então, produzi um programa sobre Saúde Mental. Neste programa, cuja convidada era uma Psicóloga, as mulheres puderam conhecer os possíveis impactos psicólogos que o Coronavírus pode causar, as diferentes formas de prevenção e os contactos para caso de necessidade.

O quarto programa foi criado pensando nas mulheres do sector informal, especialmente naquelas cujo trabalho estaria condicionado pelo facto das autoridades sul-africanas terem fechado a fronteira de Ressano Garcia, permitindo apenas a circulação de camiões de grandes tonelagem, os vulgo "camiões cavalos". Era importante encontrar formas alternativas de renda para estas mulheres, a não ser que elas se organizassem em grupos e alugassem os camiões cavalos, para poder comprar as mercadorias na vizinha África do Sul, o que para a maioria não seria possível. Fiz então um programa com uma Investigadora da CIP, que tem estado a fazer estudos voltados para o sector informal. Ela debateu comigo a possibilidade destas mulheres adquirirem as suas mercadorias dentro do mercado nacional, mencionando diferentes pontos do país onde se encontram mercadorias. Esta alternativa, garantiria a continuidade de trabalho das mulheres e contribuiria sobremaneira para fortalecer os produtos nacionais. Neste programa, debateu-se ainda alternativas sustentáveis, que podem contribuir para minimizar os possíveis impactos negativos do Coronavírus sobre as economias das comerciantes transfronteiriças. 

O quinto programa, foi pensado na necessidade de usarmos de forma útil o tempo que o distanciamento social nos oferece, e que pode contribuir primeiro, para fazermos investimentos a nível pessoal, como também, para investirmos as nossas famílias, na nreaproosimaço na dedicação à família, na criação de coesão familiar, contribuindo ainda, para afastar os efeitos do Coronavírus.

Informação e solidariedade são armas poderosas nesta pandemia. O perigo é real, mas nós decidimos como lidamos com ele. Neste sentido, Covid-19 pode nos ajudar a reajustarmos o foco ao essencial. 

 

A série “  #Estamos Junt @ s - Corona Brief Moçambique”  gostaria de trazer perspectivas diferentes e muitas vezes esquecidas dos impactos da crise, chamar atenção aos desafios que devem ser abordados colectivamente, mas também levar os holofotes as soluções criativas, que as moçambicanas e os moçambicanos encotram para lidar com a pandemia. No final, solidariedade e criatividade colectiva são os melhores parceiros rumo a uma saída da crise. #EstamosJunt@s!

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