30.07.2020

#EstamosJunt@s: África e COVID-19- Como Traduzir os Perigos e Riscos?

O Sociólogo Moçambicano, Elísio Macamo, pergunta se a adopção apressada em África dos modelos ocidentais de confinamento pode não ter destruído a sua infra-estrutura social.

Uma pandemia como a COVID-19 é to perigo que representa to desafio quase insuperável para todos os mecanismos de enfrentamento em África. Este continente está em permanente estado de crise devido, em grande parte, à sua posição no concerto global das nações. Isto significa que a posição padrão do continente consiste numa posição constante de perigos em riscos.

Ao escrever sobre a diferença entre o perigo eo risco, o sociólogo alemão, Niklas Luhmann, descreve o primeiro como um evento externo com consequências potencialmente prejudiciais das quais ents temos conhecimento, eo segundo como alo deo confrom de conico de de implico de de implico critico com o evento externo.

Esta distinção levou a sociologia do risco a presumir o perigo e o risco relacionado com os países subdesenvolvidos e desenvolvidos, colocando ênfase em duas coisas. Uma delas é o conhecimento, nomeadamente a noção que onde a ciência não é forte, as pessoas não têm consciência do que representa um perigo para a sua subsistência e, como tal, acabam por se tornar vítimas passivas das circunstâncias. A outra é a tecnologia, ou seja, a capacidade técnica de responder ao que se sabe. A pesquisa indica como esta distinção é problemática. Na minha pesquisa sobre como lidar com eventos extremos descobri que assumir riscos é uma constante antropológica. Assumir riscos descreve a natureza da acção humana.

A lógica é sempre a mesma, se nos estamos a referir a indivíduos, comunidades ou países. Estão sempre todos no processo de traduzir perigos em riscos, pois agir de forma a poder agir transforma perigos em riscos calculados. No entanto, o que torna difícil para África fazer isto é que as condições estruturais nem sempre permitem ao continente realizar este processo de tradução nos seus próprios termos. Na verdade, o desenvolvimento é um esforço intentando pelos países para definirem riscos nos seus próprios termos, dentro de estruturas amplamente fora do seu controlo.

Neste sentido, a COVID-19 não representa nenhum tipo de risco particularmente diferente para África. Tal como tudo o que os países Africanos necessitam de fazer para garantir a sua existência como nações, responder a esta pandemia seguiu um padrão familiar. Precisam de decidir se desejam ser sociedades "normais" e fazer o mesmo tipo de coisas que as outras sociedades estão a fazer, ou seguir um caminho diferente, correndo o risco de transmitir a impressão de falta de compromisso com a saúde pública.

Na maioria dos países desenvolvidos, o perigo da COVID-19 foi traduzido em risco através de um mecanismo simples: foi percebido como uma ameaça à infra-estrutura sanitária que requer taxas lentas de infecção, o chamado achatamento da curva, a fim de proteger a infra-estrutura sanitária e garantir que a mesma responda adequadamente. Quando vários países Africanos se apressaram a declarar medidas de confinamento de diversos níveis, basicamente adoptaram a tradução dos países desenvolvidos. Não conseguiram tirar proveito da sua própria experiência em lidar com crises, capacitando o povo para cuidar de si mesmo.

A natureza da pandemia em África não colocou perante as nações Africanas a escolha entre salvar vidas ou proteger o tecido económico. Em vez disso, e por mais cruel que possa parecer, colocou a opção entre permitir que muitos Africanos morressem sem proteger o tecido económico, ou permitir que muitos Africanos morressem enquanto se protegia o tecido económico. Com a pressa em adoptar as medidas de confinamento, os países efectivamente retiraram a protecção da única infra-estrutura que serviu África razoavelmente bem por muitos anos, ou seja, a infra-estrutura social. Uma tradução local do risco teria implicado a identificação de medidas para reduzir a probabilidade da infecção enquanto cada um cuidava de si mesmo.

De facto, em África, sair à rua para garantir a subsistência pessoal sob o risco de infecção é o que os indivíduos necessitam fazer para terem uma vida que vale a pena proteger. Confinar as pessoas em casa torna-as ainda mais vulneráveis, visto que isto não só as torna dependentes de outros para a sua sobrevivência, mas também porque lhes tira a única coisa que dá sentido à sua vida, i.e., os riscos que correm para proteger as suas próprias vidas.

Provavelmente ainda é muito cedo para se afirmar se a desgraça anunciada que não se concretizou - até à data, África não passou por nenhum dos cenários de horror que indivíduos e instituições em todo o mundo estão a descrever – venha desmentir as medidas apressadas adoptadas pelos países Africanos. No entanto, é claro que estas medidas foram um afastamento sério das culturas locais de risco, de tal modo que, quando chegar o momento decisivo, não será a COVID-19 a matar pessoas, mas sim as medidas tomadas para impedir que o vírus mate pessoas.

Elísio Macamo é Professor de Sociologia e Estudos Africanos na Universidade de Basileia, na Suíça. O Dr. Macamo documenta a sua pesquisa sobre o risco em África na sua publicação "The Taming of Fate- Approaches to Risk and from Social Action Perspective- Case Studies from Southern Mozambique", Dakar 2017: CODESRIA. 

A série “  #Estamos Junt @ s - Corona Brief Moçambique”  gostaria de trazer perspectivas diferentes e muitas vezes esquecidas dos impactos da crise, chamar atenção aos desafios que devem ser abordados colectivamente, mas também levar os holofotes as soluções criativas, que as moçambicanas e os moçambicanos encotram para lidar com a pandemia. No final, solidariedade e criatividade colectiva são os melhores parceiros rumo a uma saída da crise. #EstamosJunt@s!

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